A ditadura das senhas: um problema que a tecnologia trouxe para vida moderna

O mundo virtual incorporou muitas facilidades no dia a dia e, junto com elas, uma infinidade de senhas. Experimente somar todas as ações rotineiras que exigem um código especial desses e veja se isso vem se tornando um problema na sua vida (veja enquete).

E a indústria das senhas envolve bilhões de reais de investimentos em segurança por parte das empresas que as oferecem. No setor bancário, um dos que mais avança no uso de operações eletrônicas, 10% dos gastos com TI (tecnologia da informação) vão para área de segurança. E isso vem implicando na necessidade de criação de senhas cada vez mais sofisticadas por parte dos clientes.

E aí o problema vai para a rotina dos consumidores, que não sabem como administrar a combinação de números, letras e símbolos. Quem nunca teve que voltar ao banco por ter bloqueado a senha ou até mesmo formatar o celular por conta do esquecimento?

A advogada Isabela Zardo conta que com as inúmeras senhas que possui e a dificuldade em decorá-las precisou gastar R$ 40 para formatar o celular. Ela alterou a senha e, meia hora depois, já havia esquecido.  “Eu fiz de tudo para evitar o gasto. Procurei amigos, liguei para assistência do aparelho, mas nada adiantou. Tive que pagar para formatar. Acabei perdendo todos os meus dados”, lamentou Isabela. Agora, mantém os números anotados numa agenda.

Para facilitar, diz ainda que cria as senhas com base em datas especiais. Além de suas redes sociais, email, senha do computador pessoal, ela disse que sempre tem que ir ao banco mudar as senhas porque acaba bloqueando os cartões nas operações eletrônicas por “erro besta”.

“Possuo duas contas bancárias e isso dificulta mais ainda. Sempre tento conciliar as mesmas senhas, mas, por segurança e determinação dos bancos, acabo tendo que deixar números diferentes. Sem contar as letras que os bancos passam para poder completar o acesso [a conta]”, disse Isabela Zardo.

A bancária aposentada Leonete Alves é totalmente avessa às novas tecnologias por temer pela segurança dos seus dados. Ela não usa internet banking, não faz compras em lojas virtuais e nem usa email. Ainda assim, tem que administrar sete senhas diferentes: a do celular, do único cartão bancário, dois programa de milhagem aérea, um de rede social, laboratório e cadastro público para ressarcimento de imposto.

“Todas as minhas senhas são únicas. A não ser quando a empresa me obriga a mesclar letras”, afirma. Essa foi a forma  para não se perder com os números. “Não costumo mudar as senhas”.

A estratégia é criticada pelos especialistas em segurança de informação que acham perigoso manter a mesma senha para todo tipo de serviço. Não é recomendável usar a mesma senha para o banco e para redes sociais, por exemplo.

Investimentos

Segundo a Febraban (Federação Brasileira de Bancos), o investimento do setor em tecnologia da informação em 2014 foi de R$ 21,5 bilhões, crescimento de 3,4% em relação a 2013 (R$ 20,8 bilhões), sendo que 10% desse total foram somente para a área de segurança. Isso equipara o Brasil à Franca e à Alemanha em volume de investimentos no setor de TI. A Caixa Economia Federal afirma que investe cerca de R$ 150 milhões  por ano em segurança digital, cerca de 5% do total direcionado em TI.

Segundo Marco Zanini, executivo da GlobalWeb Corp, uma das maiores empresas de tecnologia no país, a necessidade de investimentos altos em segurança tornou o Brasil um grande mercado e os bancos são destaque. Hoje, diz, o Brasil responde por quase 2% do mercado mundial de tecnologia. E esse valor tende a aumentar. “Hoje, os bancos insistem na acessibilidade. Quanto melhor o acesso às contas, maior é a movimentação. Isso vai na contramão da segurança, pois acaba tornando a fraude mais fácil. Mas, a cada ano, os bancos acabam investindo mais”, afirmou Zanini.

Segundo a Pesquisa de Tecnologia Bancária da Febraban, entre 2010 e 2014, houve um crescimento de 19% no acesso das contas bancárias via internet banking, mais do que o dobro do crescimento da população com acesso à rede. No ano passado, 51 milhões de contas estavam habilitadas a utilizar o serviço virtual, 22% a mais do que em 2013. Metade das transações bancárias do ano passado foram por meio da internet ou celular.

O crescimento do uso de smartphones (de 11 milhões em 2010 para 84 milhões em 2014) para operações bancárias segue acelerado. Praticamente metade dos correntistas ativos no país usam internet para fazer as suas transações com bancos e 24% utilizam o mobile banking.

Segundo a Febraban, houve um aumento de 139% nos serviço por meio de celular, nos últimos 5 anos. Em 2010, somente 780 mil contas (menos de 1% do total) estavam aptas a utilizar esse instrumento. Já em 2014, o número subiu para 25,4 milhões (24% do total).

No Santander mais da metade dos cerca de 31 milhões clientes acessam suas contas pela internet ou celular, alcançando uma média de 180 milhões de operações por mês. De 2012 até o momento, o volume de transações via celular cresceu 50%, segundo informações da assessoria da instituição.

“A navegação é cada vez mais simples, as ofertas de produtos e serviços mais segmentadas, e também porque há um público relevante que possui um celular, mas não um computador em casa”, informou a assessoria do Santander, por email.

Sem detalhar valores de investimento em segurança digital, o Bradesco (maior banco privado do país) informou que, em maio deste ano, 31% das transações totais da instituição (281 milhões) foram com uso de celular. Apenas em 2014, essas transações subiram 120%.

Biometria

Para evitar fraudes, há estudos de substituição de senha por biometria e os chamados tokens, que fornecem uma senha única temporária (One Time Password, sigla em inglês). Segundo Zanini, o uso da biometria nessa área ainda gera uma quantidade significativa de erros e dificulta o reconhecimento de muitas pessoas, o que gera custo e traz benefício ainda pequeno para a empresa contratante do serviço. Já no caso dos tokens, isso facilita porque os usuários não têm que decorar senhas. “Essa senha dinâmica [tokens] aumenta a segurança, pois se trata de senhas únicas. A biometria não está descartada. Essa seria a melhor forma.”, afirmou Zanini.

 

Fonte: Fato online

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