Análise: recuperação da economia global pode ser chave em 2014

No começo de 2013, boa parte dos analistas esperava que a economia brasileira fechasse o ano corrente com expansão na faixa de 3% a 3,5%, segundo levantamento feito pelo Latin Focus Consensus Forecasts. Hoje, com o ano encerrado, parece ser bastante provável que a expansão de nosso PIB tenha sido de 2,4% ou um pouco menos.

Foi o terceiro ano consecutivo em que o desempenho da economia brasileira frustrou as expectativas. Embora isso já esteja no retrovisor, é importante buscar as razões por detrás dessa frustração, a fim de reduzir os erros de projeção e dar subsídios para orientar e moldar as ações de política econômica.

Sob a ótica da demanda, boa parte das expectativas indicava que os investimentos (isto é, a Formação Bruta de Capital Fixo, ou FBCF) cresceriam em torno de 5%, desempenho apenas suficiente para desfazer a retração de quase 4% verificada em 2012.

Mas, a despeito de todas as turbulências externas e internas ao longo do ano, a FBCF deverá fechar o ano com alta próxima a 6,5% -ou quase 8,5% quando se contabilizam como investimentos, e não como exportações (como é feito pelo IBGE), US$ 6,6 bilhões correspondentes a seis plataformas da Petrobras que foram exportadas apenas contabilmente neste ano.

Essa alta dos investimentos foi disseminada, não se concentrando só em caminhões, ônibus e máquinas agrícolas. Nesse quadro, a taxa de investimento brasileira -isto é, a razão entre a FBCF e o PIB- deve ter atingido em 2013 o nível mais elevado em quase 25 anos (veja gráfico).

Essa razão está a preços constantes, de modo a isolar a evolução das quantidades (algo necessário diante da constatação de que a variação dos preços dos bens de investimento quase sempre é inferior à variação média dos preços dos bens e serviços da economia como um todo).

A eventual alteração do ano base mudaria os valores no gráfico, mas não o formato da curva -ou seja, não se alteraria o diagnóstico de que atingimos o maior patamar em quase 25 anos. Por outro lado, houve uma frustração relevante com o desempenho daquele componente que responde por pouco mais de 60% de nosso PIB pelo lado da demanda, o consumo das famílias.

Esperava-se, no início de 2013, que sua expansão chegasse a 4%, mas sua alta efetiva deverá ficar algo abaixo dos 2,5% -o menor ritmo desde 2003 (ano em que recuou 0,8%), e bem abaixo da média de 2004-2008 (+5,1% a.a.) e 2009-2012 (+4,6% a.a.).

Além da forte alta do preço relativo dos alimentos na primeira metade de 2013, que afetou o consumo de bens não duráveis, nota-se uma gradativa perda de fôlego do consumo nos últimos três anos, refletindo, provavelmente, um maior nível de endividamento das famílias (sobretudo o comprometimento mensal de renda com prestações) e uma penetração cada vez maior de bens duráveis.

Ademais, as famílias podem estar direcionando cada vez mais recursos a investimentos em ativos fixos (FBCF), por meio da construção e aquisição de imóveis.

Também houve frustração significativa com relação ao desempenho das exportações, responsáveis por pouco mais de 13% de nosso PIB.

Esperava-se uma alta de pouco mais de 7% das exportações de bens (em dólares), mas elas deverão ter queda de quase 1% (variação que iria a -3,5% com a exclusão das operações contábeis de vendas de plataformas).

Esse ponto ressalta a importância do desempenho da economia mundial e do comércio internacional. E em 2013 o mundo viveu o terceiro ano consecutivo de frustração: boa parte dos analistas esperava expansão global próxima a 4%, mas a alta deverá ficar em 3% -a mais baixa desde 2009.

A perda relevante de fôlego da economia global de 2011 em diante mostra que essa retomada se deu em formato de “W”, em termos de taxas de variação (e não de nível do PIB mundial).

FONTES DE FRUSTRAÇÃO

O principal corolário da análise feita nos parágrafos anteriores é o de que as principais fontes de frustração com o desempenho econômico recente do país estão associadas em grande medida a fatores ligados à demanda -demanda externa fraca e demanda de consumo interno com fôlego cada vez menor- e não a restrições de oferta.

O estoque de capital da economia brasileira cresce hoje cerca de 4% a.a., o dobro do observado antes da crise, refletindo a taxa de investimento mais alta; a oferta de mão de obra, embora tenha reduzido seu ímpeto, ainda cresce a quase 1,5% a.a; e a produtividade total da economia em prazos mais curtos é, em boa medida, pró-cíclica (o que explica sua estagnação recente).

Para o PIB voltar a crescer em linha com seu potencial de médio prazo, estimado em 3,5% a.a. (segundo cálculos da LCA, taxa que coincide com a estimada pelo FMI), será preciso um rebalanceamento das fontes de demanda.

O investimento precisará avançar ainda mais -pois ainda temos deficiências, sobretudo em infraestrutura econômica e social- e a demanda externa deverá voltar a contribuir positivamente para o nosso crescimento.

Enquanto o primeiro desses fatores depende principalmente de ações da política econômica brasileira -como o programa de concessões (que finalmente começou a sair do papel) e o estímulo às PPPs (que começaram a deslanchar)-, o segundo dependerá primordialmente de uma melhora da economia global, algo que parece ser bastante provável a partir deste ano -o que completaria, assim, a última perna do “W” e daria início, torçamos, a um novo ciclo de expansão sustentada do PIB mundial.

 

Fonte: Folha de S. Paulo

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